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30/11/2012

BRASILEIRA DE SUCESSO NO VALE DO SILÍCIO APRENDEU INGLÊS VENDO TV

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Isabel Pesce Mattos

Eram 8h no Vale do Silício quando Isabel Pesce Mattos, a “menina do vale”, me atendeu no Skype. De cabelo molhado, moletom do Google e uma simpatia contagiante, a paulista de 24 anos dedicou uma hora do seu corrido dia para me contar mais sobre sua vida – e ainda foi pouco.

Apesar do currículo carregado de nomes como MIT, Microsoft e Google, Bel não apresenta nenhum sinal de vaidade. Ela conta com humildade e humor, em meio a gírias paulistas e americanas, como conseguiu traçar um caminho invejável para qualquer jovem da atualidade. E mais que isso, como a curiosidade e a persistência foram imprescindíveis para alcançar o sucesso.

Sucesso, aliás, que ainda é pouco enaltecido por ela. Os números que rondam sua vida – como 30 mil cópias do seu livro vendidas em três semanas ou dois milhões de usuários de seu aplicativo – mostram que ela já venceu, mas Bel é daquelas que prefere aprender a ganhar. "Eu quero aprender, criar... ainda tenho muito que absorver", disse a jovem empreendedora em entrevista ao Olhar Digital. Se você ficou curioso para saber mais sobre ela, leia abaixo o bate-papo completo.

Você cursou a melhor faculdade de engenharia do mundo. Como você conseguiu entrar no MIT? Comente sua trajetória acadêmica.

Eu venho de família simples e sempre estudei em colégio de bairro. Na época do colegial, eu estava indo no cinema com uma amiga que ia prestar um concurso de bolsa para o colégio Etapa e pensei em prestar também. Eu acabei passando e estudei os três anos do colegial lá. No terceiro ano, resolvi que faria engenharia porque gostava muito de matemática e de criar coisas. Então, fiz um cursinho preparatório para entrar no ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica]. Este cursinho foi essencial para eu conseguir entrar no MIT.Alguns dos simulados do Etapa que eu fazia na época do preparatório eram tão difíceis quanto as provas dentro do MIT.

E o inglês, você já sabia falar?

Eu tinha feito alguns anos de uma escola de inglês e adorava o seriado ‘Friends’ [seriado americano exibido na TV paga brasileira], por isso via os episódios em inglês milhares de vezes e acabei aprendendo mais. Eu tive que passar no TOEFL [Teste de Inglês como Língua Estrangeira] para prestar MIT, mas não era fluente [em inglês] mesmo. Consegui passar pela nota de corte. No exame SAT [necessário para ingressar em faculdades norte-americanas] eu escolhi física e matemática, porque achei que pudesse entender melhor as questões. Fui muito bem, tirei quase nota máxima nas matérias.

O curso no MIT era muito puxado?

Eu amei o MIT e não tive dificuldade nenhuma, porque as provas preparatórias para o ITA eram muito puxadas. O problema de lá é que as pessoas sofrem por muitas vezes não serem o melhor, como eles sempre foram. Lá eles pegam os melhores de cada escola do mundo, por isso, você fica rodeado de pessoas muito boas e, às vezes, melhores que você. É um lance psicológico mesmo.

Foi no MIT que você desenvolveu seu lado de empreendedora?

Eu sempre gostei muito de criar coisas, mas não sabia exatamente o quê. Eu gostava de engenharia, de escrever e de desenhar. Desde pequena tinha esse espírito de criação. Eu andava com uma pastinha com ideias de videogame, fazia miçangas para vender... Sempre tive um espírito empreendedor, mas nunca tinha ouvido falar na palavra ‘empreendedorismo’. No MIT eu escutei sobre isso pela primeira vez em uma competição de negócios no primeiro ano, então, percebi que era isso que eu gostava de fazer. Mas minha curiosidade me levou a outras coisas também, fiz dança, música, francês, japonês e história.

Nesta época que surgiu a Lemon?

Eu conheci um dos meus mentores, o Rei [Reinaldo Normand, criador da 2Mundos. Clique aqui para ver uma entrevista exclusiva com ele], que me apresentou para um empreendedor que admiro muito, o Wences Casares. Eu achei ele muito carismático. Ele me disse que estava querendo abrir uma empresa e eu pensei: minha vontade é aprender tudo com este cara e este mesmo cara quer abrir uma empresa, então por que não abro com ele? Sem pensar muito, bati na porta da casa dele e disse que queria trabalhar com ele. Na época, ele tinha um aplicativo de métodos de pagamentos online, então, pensamos em criar uma réplica de uma carteira física, com recibos, documentos e uma camada de inteligência em cima disso, que mostra as transações do seu cartão e etc. Hoje temos 23 pessoas trabalhando com a gente entre Buenos Aires e aqui no Vale do Silício, e estamos com dois milhões de usuários. Mas, ainda é totalmente startup, tem muito para se desenvolver. Hoje eu cuido de produtos.

Mas, você desenvolve?

Não, só dou ideias aos engenheiros.

Além da Lemon você se envolveu no desenvolvimento de outras startups, não foi? Conte um pouco mais sobre estes projetos.

Na época da faculdade, eu cheguei a trabalhar em sete ou oito projetos que iam desde hardware até softwares. O Ooyala era uma plataforma de vídeo. Fiquei um ano e meio trabalhando lá. Quando eu entrei tinham 20 pessoas e quando eu saí, já tínhamos contratado 250 funcionários. Lá eu tive minha primeira experiência liderando três grupos de engenheiros. Já o Tisk Task foi uma plataforma de administrar tarefas em grupos que eu e alguns amigos da faculdade desenvolvemos para nos organizarmos. Nós morávamos em uma fraternidade e era difícil saber as atividades de cada um. Então, criamos esta ferramenta online. Isso está parado, mas ainda funciona e tem alguns amigos que ainda usam.

Hoje você não está com nenhum projeto paralelo à Lemon?

Não, estou focando muito na Lemon. A única coisa que tenho feito além disso são os encontros pela Sandbox Network. Este é um projeto muito legal. Os caras tiveram uma ideia ótima. Eles entenderam que todos os líderes do mundo se conhecem, porque são pessoas importantes. Então, eles resolveram fazer com que os futuros líderes, com menos de 30 anos, se conhecessem antes e trabalhassem juntos. Hoje somos em 70 pessoas no grupo e eu sou a ‘head’ [líder] no Vale do Silício. Tenho aprendido muito com todos.

Além da Sandbox Network, também vivo correndo atrás de coisas que me interessam. Hoje, por exemplo, vou a uma palestra em Stanford com Peter Thiel [cofundador da PayPal]. Este tipo de coisa abre minha mente. Eu sou muito curiosa.

Você consegue identificar uma tendência no empreendedorismo?

O que está ‘bombando’ aqui neste momento é a ideia de consumo coletivo, como o Air BNB ou o Get Around. Você coloca um quarto/sofá da sua casa para alugar ou aluga seu carro por algumas horas. Eles chamam isso de ‘collaborative consumption’ [consumo colaborativo].

Sabemos que no Brasil não há muito a cultura de empreender, além de existirem alguns limitadores no país para se abrir um negócio, como burocracias e altos impostos. Apesar disso, você acha que o país ainda pode se tornar um pólo empreendedor?

O Brasil é empreendedor, mas acho que deve ficar claro que você pode empreender de diversas maneiras: dentro da empresa que você trabalha ou até dentro da faculdade. No Brasil precisamos de educação para empreender, exemplos e infraestrutura para que as pessoas consigam arriscar. O problema é que no Brasil, se você não vence, é bem mais difícil de levantar. Então, as pessoas ficam com medo de arriscar e não há nada pior para o empreendedorismo que o medo.

O país está em um momento interessante, mas isso tem um lado bom e ruim. O lado negativo é que o pessoal está achando que é fácil empreender, pois só mostram histórias de sucesso. Acho que é preciso mostrar histórias reais, as que deram certo e as que deram errado. Empreender não é glamoroso e é difícil aqui [Estados Unidos], imagine aí [Brasil]. Vejo gente querendo empreender, e se não dá certo por três meses, desiste. Acho que o brasileiro deve ser mais tolerante com erro. O verdadeiro empreendedor não desiste. Empreender é opção de carreira e, mais que isso, é tocar vidas.

Você pretende se arriscar por aqui?

Estou doidinha para volta para o Brasil. O país está em um momento interessante e confesso que tenho mais oportunidades aí que nos Estados Unidos. Aqui várias pessoas se formam por ano no MIT e no Brasil são poucas, por isso, teria mais portas abertas. Além disso, já tomei muito na cara por aqui e aprendi bastante com tudo. Mas, não quero voltar reclamando dos problemas do país, mas com soluções. O meu livro [lançado em papel no Brasil] foi um empreendimento no país. Mas, eu gosto de educação e pretendo fazer algo com isso no Brasil.

Aproveitando o ensejo, conte um pouco da história do seu livro [A Menina do Vale]. Ele nasceu de algumas anotações, certo?

Eu sempre tive essa mania de querer saber que o dia valeu a pena para mim, lembrar no fim do dia que eu fiz algo bom. Por isso, comecei a escrever pequenas coisas do meu cotidiano em um caderninho. Eu grudava no caderno cartões de pessoas que eu conhecia, e-mails interessantes, enfim... Quando eu conheci o Rei e descobri o que significava um mentor dentro do Vale do Silício, eu adorei. Eu escrevi tudo no caderno e, quando reli, percebi que no momento em que aprendi sobre os mentores, achei aquilo mágico. Sabe quando você aprende algo novo, mas que para os outros é superbásico? Então, eu pensei que se aqueles aprendizados tinham sido tão importantes para mim, talvez pudessem ser para muitas pessoas. Aí resolvi escrever um livro com tudo isso. Como funciono muito bem com prazos, estipulei um prazo e consegui. Em dois meses o livro estava no ar [Bel lançou primeiramente o livro em versão online gratuita]. Em uma visita ao Brasil, algumas editoras brasileiras queriam fazer uma versão impressa do livro, mas eu tinha uma série de restrições. Queria que o livro custasse menos de R$ 20 e disse que a Lemon era minha prioridade, portanto, não poderia fazer turnê pelo país. Em três semanas, vendemos 30 mil cópias e o livro entrou na lista dos best seller [mais vendidos]. Hoje também está no ar o "Caderninho da Bel" [vídeos com dicas de empreendedorismo que podem ser vistos aqui].

A que você atribui seu sucesso? Você acha que sua curiosidade ajudou?

Sim, eu acredito que o mundo nada mais é que um monte de decisões de pessoas, então, ser genuinamente interessada por elas e observá-las é um grande aprendizado. Gosto de gente e de conhecer pessoas, mas sem nenhum interesse. Se rolar sinergia, ótimo, senão, ok também. Eu quero aprender, criar... ainda tenho muito que absorver.

Fonte:Site Olhar Digital 

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